Minh'alma é um trem descarrilhado
Que, de tanto andar na linha, escapou pelas beiradas.
(Inda me pergunto: que beiradas?
Que malditas beiradas são essas por onde vago?)
Da minha música, só reconheço a melodia
Porque a letra está sendo misteriosamente escrita
Escrita num ciclo de horas e tempos que não sou capaz de compreender;
Porque compreendo com o coração e a razão me rasga.
Ultrapasso o entender como uma pobre criança que não nota a mudança do semáforo.
E chego num lugar
(não é bem um lugar)
É um pequeno inferno da alma
Onde os doloridos da mente
Tentam curar-se, sem propósito.
Porque, (oh, pobres!), não há cura para o que não é doença.
Minha presença é só e unicamente minha
Minha dor é minha
E, se um dia, os tolos chamaram de egoísmo a solidão tão necessária
Queria apenas que minha dor gritasse a eles
Gritasse o quanto ela dói.
Mas, (covarde!), não tem voz
E, gritando enquanto ela me dói,
As palavras saem num rumo próprio.
Da angústia de pensar,
Aprendi que os pensamentos me bastam
(Mas não me abastecem).
Porque minh'alma é a pequena flor que adia toda a minha primavera,
Trancada nela própria
Segura da chave que é ela e dela.
Aos lugares eu vou;
Minhas pernas me levam como duas mecânicas,
Como um desenho animado
Perambulando pelo último círculo do Inferno de Dante
Onde Lúcifer gargalha gostosamente dos deleitosos infelizes.
Família não tive
Ou melhor, tive, mas hoje já não tenho.
Estão todos enterrados
(metaforicamente?)
O que restou-me foi apenas uma lembrança infantil
Da roda-gigante que eu não queria subir porque já era triste.
Do amor, só me sobraram as poesias.
Eu sinto amor! (e como sinto!)
E meu peito explode
(mas não ternamente)
E as cinzas caem sobre minhas roupas limpas
Para me lembrarem o que é viver,para me lembrarem o que foi amar.
Para me lembrarem que a lembrança é a maior e pior dor de todas.
E que ela vai estar sempre lá,
Em qualquer cantinho de felicidade que o coração timidamente tente irradiar,
Como que um sopro misterioso apagando uma vela acesa
(A única que restava)
Da escuridão de uma existência muda.
Minh'alma é um trem descarrilhado
Que, de tanto andar na linha, escapou pelas beiradas
(Inda me pergunto: que beiradas?)
E deixo o último sopro da madrugada levar a minha dor
Para que a manhã do novo dia
Possa trazer-me uma nova.
E, desse pequeno e incômodo inferno, resta-me o sono.
(Não dos bons)
(Não dos justos)
Mas dos feridos da alma
E dos insanos do coração.
E, no primeiro raio de manhã,
meus olhos fecham-se, incontidos.
E assim, na insanidade gostosa do sono e do sonho,
(Aí, e somente aí!)
A paz de alma me cobre
Como uma mãe que nunca tive.







