domingo, 28 de agosto de 2011

Da dor de qualquer um - a tabacaria sem a janela.


Minh'alma é um trem descarrilhado
Que, de tanto andar na linha, escapou pelas beiradas.
(Inda me pergunto: que beiradas? 
Que malditas beiradas são essas por onde vago?)


Da minha música, só reconheço a melodia
Porque a letra está sendo misteriosamente escrita
Escrita num ciclo de horas e tempos que não sou capaz de compreender;
Porque compreendo com o coração e a razão me rasga.
Ultrapasso o entender como uma pobre criança que não nota a mudança do semáforo.


E chego num lugar
(não é bem um lugar)
É um pequeno inferno da alma
Onde os doloridos da mente
Tentam curar-se, sem propósito.
Porque, (oh, pobres!), não há cura para o que não é doença.


Minha presença é só e unicamente minha
Minha dor é minha
E, se um dia, os tolos chamaram de egoísmo a solidão tão necessária
Queria apenas que minha dor gritasse a eles
Gritasse o quanto ela dói.
Mas, (covarde!), não tem voz
E, gritando enquanto ela me dói,
As palavras saem num rumo próprio.


Da angústia de pensar,
Aprendi que os pensamentos me bastam
(Mas não me abastecem).
Porque minh'alma é a pequena flor que adia toda a minha primavera,
Trancada nela própria
Segura da chave que é ela e dela.


Aos lugares eu vou; 
Minhas pernas me levam como duas mecânicas,
Como um desenho animado
Perambulando pelo último círculo do Inferno de Dante
Onde Lúcifer gargalha gostosamente dos deleitosos infelizes.


Família não tive
Ou melhor, tive, mas hoje já não tenho.
Estão todos enterrados
(metaforicamente?)
O que restou-me foi apenas uma lembrança infantil
Da roda-gigante que eu não queria subir porque já era triste.


Do amor, só me sobraram as poesias. 
Eu sinto amor! (e como sinto!)
E meu peito explode
(mas não ternamente)
E as cinzas caem sobre minhas roupas limpas
Para me lembrarem o que é viver,para me lembrarem o que foi amar.
Para me lembrarem que a lembrança é a maior e pior dor de todas.
E que ela vai estar sempre lá,
Em qualquer cantinho de felicidade que o coração timidamente tente irradiar,
Como que um sopro misterioso apagando uma vela acesa
(A única que restava)
Da escuridão de uma existência muda.


Minh'alma é um trem descarrilhado
Que, de tanto andar na linha, escapou pelas beiradas
(Inda me pergunto: que beiradas?)
E deixo o último sopro da madrugada levar a minha dor
Para que a manhã do novo dia
Possa trazer-me uma nova.
E, desse pequeno e incômodo inferno, resta-me o sono.
(Não dos bons)
(Não dos justos)
Mas dos feridos da alma
E dos insanos do coração.


E, no primeiro raio de manhã, 
meus olhos fecham-se, incontidos.
E assim, na insanidade gostosa do sono e do sonho,
(Aí, e somente aí!)
A paz de alma me cobre
Como uma mãe que nunca tive.




quarta-feira, 6 de abril de 2011

As Vitrines



O telefone tocaria. Laura verificou, novamente, se o telefone antigo do hotel encontrava-se  no gancho. Ele teria de ligar. Era impossível se convencer do contrário. 
Levantou-se da cama imunda, e caminhou lentamente em direção ao espelho retangular mal acomodado ao lado do banheiro. A imagem que via ao espelho a intrigava... aquela não era Laura. Ou melhor, era Laura, sim. Era Laura às avessas. Era a Laura do presente, o presente que havia sufocado qualquer tentativa de retorno à Laura do passado. Embora, pensou ela ao soltar os cabelos encaracolados, entre o seu presente e o seu passado havia apenas a diferença do tom de seus cabelos e umas rugas a mais.
    
A mulher abriu as janelas empoeiradas do hotel ; o dia ensolarado e bonito parecia zombar alegremente de seu estado de espírito. Os pardais brincavam no parapeito da janela. Laura sentiu-se mesquinha ao detectar uma ponta de inveja daqueles pardais alegres. Para eles a vida era tão simples e bonita... consistia basicamente em procurar por comida e namorar no parapeito da janela de mais um humano infeliz. Afastou-se da janela; a claridade desafiadora do dia lhe fazia mal.
  Caminhou lentamente até o banheiro. Um banho lhe faria bem, pensou. Pensou por um momento como seria agradável e confortante se a água quente e corrente do chuveiro fosse capaz de lavar sua sujeira interna. Refletiu em seguida e decidiu que talvez gastasse muito mais água do que o normal, caso o chuveiro fosse um devorador de pecados. Riu por um momento, e despiu-se. A água do chuveiro estava quase fervente. Laura deixou que ela escorresse por intermináveis minutos pelo seu corpo nu. Deixou o banheiro, vestiu-se. Começou então a refletir o que faria dali em diante. Não tinha amigos que aguardassem ansiosamente por notícias suas, não tinha um chefe que aguardasse o seu projeto e não tinha o principal, aquilo que dá sentido à existência humana: perspectiva. 
   Nunca tivera perspectiva nenhuma. Desde criança, o que viesse era sempre lucro dos bons. Sempre se perguntara como era capaz de viver sem esperar por um amanhã melhor. Talvez houvesse uma explicação ridiculamente freudiana sobre seu modo de vida: seus cigarros, suas bebidas exageradas, seu cabelo escandalosamente vermelho, suas centenas de homens e de quartos sujos de hotel, como o que se encontrava agora. Sua falta de perspectiva era apenas um álibi, gritava Freud em sua consciência, a plenos pulmões. Mas ela já estava tão acostumada a mandar Freud à merda que nem dava mais atenção a esse tipo de pensamento "racional". 
   Esparramara-se na cama, na inútil tentativa de relaxar a mente e afastar os psicanalistas fantasmagóricos...Seu pensamento agora voava, como pássaros voam sem rumo. Pensou em suas colegas do fundamental. Todas elas tinham, hoje, uma vida aparentemente normal. Todas elas tinham maridos, filhos e casas aconchegantes. Todas elas eram aparentemente felizes, felizes como manda o guia "aparente ser uma pessoa feliz para a sociedade". Todas elas tinham um chefe, um serviço, todas elas carregavam fotos dos seus filhos bonitinhos na carteira, e as mostravam a quem pedisse (e a quem não pedisse). Todas elas faziam compras no shopping de domingo,  todas elas esperavam ansiosamente pelos maridos todas as noites. Todas elas tinham perspectiva...nem que fosse uma fútil troca de carpetes, mas era uma perspectiva que as mantinha vivas. Laura sempre achara curioso o fato de que, aparentemente, obtivera a mesma educação, lera os mesmos livros e recebera os mesmos estímulos que suas colegas felizes, porém em algum lugar ela se perdera. Em algum lugar que ela não sabia qual, nem como chegar. Muito menos como sair. 
  Seu pensamento, novamente como um passarinho sem rumo mas insistentemente no ar, continuou a vagar. Pensou em Deus. Deus...nunca duvidara de sua existência. Nem poderia. Ele a amava, estava escrito na Bíblia. E acompanhava de perto o seu sofrimento, como um pai zela o sono de um filho. Talvez ele fosse o único a saber o que ela tanto queria saber... Afinal, Ele de tudo sabe, é onipotente e onipresente, é Dele tudo e todos. Ele, Deus, só estava esperando o momento oportuno para realizar uma reviravolta artística em sua vida. Ela tinha certeza. Verificou novamente o telefone. Ele não tocava por teimosia, só podia ser. Resolveu que umas voltas e umas vitrines a fariam bem. O telefone não poderia tocar, a maré de azar em sua vida já havia atingido a avenida da praia...
  A avenida estava apinhada de gentes, sorrisos e sacolas. Tudo parecia tão cheio de vida... Mulheres carregavam as suas sacolas como se a um filho, e quase todas estampavam um sorriso prazeroso no rosto. Laura foi-se levando pelas vitrines... sentia um sádico prazer em admirar tudo aquilo que talvez nunca pudesse possuir. Anéis brilhantes, vestidos coloridos, eletrodomésticos fantasticamente tecnológicos... tudo aquilo era o motivo de tantos sorrisos e sacolas? Talvez. Talvez aquilo realmente fosse felicidade. Mas Laura não poderia ter certeza de nada acerca da felicidade...não se opina sobre algo que nunca se sentiu. A mulher continuou por caminhar sobre as ruas cheias de felicidade. Sentia-se insegura, como se estivesse atrapalhando a inacabável felicidade alheia. Sentia-se como algum intruso que anuncia o fim de um espetáculo maravilhoso. Passou por lojas e lojas, cada uma mais estampada que a outra. Se ela tentasse sorrir falsamente - pensou- com certeza seu sorriso não soaria tão verdadeiro quanto o sorriso das manequins imóveis nas vitrines. Caminhou, então, em direção ao hotel. Lá ela podia ser infeliz sem se sentir intimidada. Lá ela podia ter várias sacolas...vazias. Lá ela podia deitar-se na cama e afundar-se em seus pensamentos aparentemente ridículos e inúteis para as "pessoas das sacolas e sorrisos". 
  A volta parecia não ter fim. Talvez porque tivesse passado o hotel há muito tempo. E não sabia, enfim, que rumo estava tomando. Estava deixando a lógica de sua vida guiá-la de volta a algum lugar que ela não sabia qual. E talvez nunca soubesse. Será que seria possível caminhar para sempre? 
   Anoiteceu. O céu ensolarado já não zombava mais de sua infelicidade. Agora era a vez da maravilhosa lua cheia e brilhante anunciar que só era infeliz quem queria, ou quem merecia. Ela não sabia em qual das duas opções se encaixava, ou se se encaixava em alguma delas de fato. Talvez Deus soubesse. Ou melhor, Ele sabia. Estava com os pés doloridos; caminhara durante horas, e não fazia a mínima idéia de onde suas pernas a teriam levado. Sentou-se num balanço de madeira de uma praça escura, e pôs-se a balançar ridícula e infantilmente. Não sabia o que faria em seguida. Não sentia sono nem fome, apenas a dor contínua nos pés e na alma.  Não pensava mais no telefone que deveria ter tocado, nos pertences que deixara no hotel...simplesmente não pensava. Nada mais importava, apenas balançar, infinitamente, quanto mais alto melhor. A lua parecia cada vez mais zombeteira a cada balançada. Será que alguém já sentira raiva do brilho da lua ou do azul do céu? Parecia rídiculo. Porém, para Laura, extremamente plausível. 
   Balançava havia horas. Uma gota caiu em sua face. Depois mais uma, e mais uma, e uma chuva forte tomou conta do parquinho. Deixou a chuva cair e lavar sua maquiagem mal-feita. Ficou observando como a chuva entupia gradativamente o bueiro, como ela lavava a calçada a cada gota pesada, como ela transformava a areia fofa do parquinho em um barro grudento e nojento. Ficou observando a chuva até que ela parou por completo. O sol nasceu, zombando dela mais uma vez. As mesmas pessoas voltavam ao parquinho, as mesmas pessoas sorriam, as mesmas crianças brincavam. Afinal, a vida era um ciclo- refletiu a mulher. Tudo ia e voltava, o sol, a lua, as pessoas, os sorrisos, até as sacolas eram capazes de se reciclar. Se era assim mesmo, como a lógica de seu raciocínio, então das duas uma: ou ela não tinha ido, ou não tinha voltado. Só se volta quando se vai.  Ou existira um dia e já não mais, ou nunca existira e um dia existiria, enfim. Se tudo era um ciclo, a vida também deveria ser. A gente nasce, alguns vivem, outros apenas existem, e morremos. E depois nascemos de novo, rumo a uma perfeita vida eterna. 




   Laura, então, com um digno sorriso de manequim no rosto, encerrou o seu ciclo. 
   

sábado, 27 de novembro de 2010

Lead me to your door


    
          Caminhando sem lenço nem documento, odiando Caetano. Piada pronta de quem ri da desgraça mas não é a desgraça. Rezava, era só o que sabia - e podia- fazer. Orava, porque Deus é misericordioso. A vida não. A vida não perdoa. Ou é ou não é, sem meio verbo. A estrada longa e sinuosa - plágio descarado -  da minha vida. A mesma velha estrada, que nem existe.Eu nunca fora a lugar algum. Na verdade fora, com os pés, mas meu coração é morto. Sempre fora. Mas Deus é misericordioso, o terço que carrego nas mãos contêm os cinco mistérios da minha vida. Não cheguei no primeiro, não saí dele. Cada mistério é uma passagem da salvação. Da minha salvação. Aqui, pequena, nas minhas mãos, plástico. Meu pensamento me traz à tona a minha desgraça de uma forma magistral. Fica repetindo imagens do que fora uma vida desgraçada no sentido literal do dicionário. "Vagabundo, sujo!" Grito pro mundo, que nunca gritou de volta. A estrada é sinuosa, assim como meu coração. As veias se confundiram e jorraram sangue no lugar errado. Nem dor senti. "Preciso sentir!"- gritava, mas o meu grito voltava pra mim, goela abaixo, como que um rude "cala a boca" da vida. 
      Primeiro mistério. Água. Sim, porque eu tenho uma vida fisiológica. Meu coração bate, meus rins funcionam. Os cientistas me consideram vivo. Há dor física. Me cortar. Ah, era pra doer, mas a desgraçada fazia questão de deixar a marca sem o sintoma. Nunca consegui alcançar minha alma, no máximo um êxtase quimicamente calculado. Sem alma. Me jogo na poça de lama, faço jus à minha sujeira interna. Por quê? Deus criou os sujos e os bem-amados. Seguro com força o Rosário que tenho nas mãos. Mais força, porque força ainda me resta, de uma vida sem razão nem esforços. Força, muita força! Minhas mãos começam a sangrar, a palma da minha mão dói! Dor. Sorrio. Um dos mistérios está desvendado. Sou capaz de sentir dor, de provocar dor.
   Segundo mistério. Sou um compacto dos sete pecados capitais. Sou o humano da preguiça, da luxúria, da inveja. De todos. Sinto tudo e nada ao mesmo tempo. Mas sou um paradoxo tão pobre que ninguém consegue me ler. Minha língua arde. A língua, aquela mesma, de tanta farra, tanta injúria. Se pudesse cortá-la pra fora...mas morrer sem a língua é morrer sem o orgulho da palavra. Que nunca tive. É, nunca tive. Apanho uma pedra no chão e começo a passá-la gostosamente pelos meus dentes, pela minha língua. Começo a machucá-la aos poucos. É bom muito bom sentir. Deus me deu o livre arbítrio, muito obrigada Meu Deus! "Posso te chamar de Meu?"- rosno para a escuridão. Jogo a pedra cheia de sangue misturado com saliva. Nojo? Sou mais digno de nojo do que aquela pedra. Me orgulho de ser digno de nojo. Ao menos sou digno de algo, além do Reino dos Céus. Segundo mistério desvendado. Sou digno.
      Terceiro mistério. Um pai-nosso, dez ave-marias. Amor? Não sei, deve ser pra lá. Pra mim poderia ser um nome de cidade. Fidelidade? Não, compulsão por trair, perigo, sexo por convenção, como um cachorro. Nem por tesão, necessidade fisiológica. Compulsão por não viver. Não ser normal nem anormal, não ser nada, simplesmente. E querer ser tudo, nem que seja tudo de ruim, mas que seja alguma coisa no mundo.Que signifique. Olho pra uma flor feinha no meio do caminho. Cuspo nela com vontade. "Vagabunda". Fica lá parada tentando botar cor nos olhos de quem não quer ver cor. Aquilo era o cúmulo do ridículo. Arranco minhas roupas. Deus me ama do jeito que vim ao mundo. Grito, com todo o poder das minhas cordas vocais: "Deus, como sou uma criatura digna de pena! Olhe pra mim, isso é a sua humanidade! Essa pele nojenta, esses olhos sem alma, sem o brilho que você queria! Você falhou, seu grande palhaço!" Pego um punhadinho de areia e começo a passar delicadamente por todo o meu corpo. Sinto os grãos de areia esfoliarem minha pele velha. Não de idade. Cheirei tudo o que pude pra ter alma. Mas essa porra não existe. Não em mim. 
  "Pai nosso que estás no céu, santificado seja o Vosso Nome." A estrada longa e sinuosa nem existe. Eu não existo.


   A seringa cai das minhas mãos e, como as outras tantas, vai rolando até um laguinho. Lá ela se afunda. Vejo minha vida refletida. Sinto tristeza. Nunca fui tão feliz. Quarto mistério, quinto mistério. Com o orgulho de morrer com o poder da palavra, profiro:



"E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal."

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Insônia

     

    Às vezes eu fico pensando que se eu fosse o céu eu poderia ser mais. Ter cor. Eu nunca tive cor, só o esboço o cinza do pulo que dei quando morri de tédio de mim mesma. E morram, psicanalistas baratos! Isso não é depressão e sim vida. Porque existir dói. Dói mais que anestesia em machucado. Dói e é uma dor tão gostosa que eu quero mais e mais até o êxtase da minha alma! Isso se minha alma não se perdeu nos devaneios da minha mente. Se eu fosse o céu eu poderia estar e não somente ser, como que desafiando um verbo que faz a gente querer fazer muito sendo tão pequeno. Às vezes eu fico pensando que se eu passasse cada pedaço de pensamento meu pro papel não sairiam letras e sim imagens distorcidas de coisas que simplesmente não existem e as letras não alcançam. Mas eu não passo pensamentos e sim palavras belamente arranjadas como deve ser, como me mandaram fazer.
Se não posso ser o céu vou ver o céu, na sua imensidão que é e existe, sempre, dia após dia, sem corda-bamba. Não é. Existe. Abismo! Há um abismo entre ser e existir, e eu estou dançando alegremente à sua beira, zombando da mediocridade da minha alma grandiosamente criativa.


Escrever poesia é um dom; fingir que escreve poesia também é.






terça-feira, 5 de outubro de 2010

Love me do



Ele tem fetiche por mãos
E ela por braços
Ele gosta de skate
Ela, de corações

Ele ri à toa
Ela tenta rir da piada
Ele desabotoa
Ela se transveste


Ele prega peças
Ela é o teatro
Ele canta rock
Ela canta a vida

Ele faz sexo
Ela faz charme
Ele gosta de loiras
E ela de livros


Ele nunca amou
Ela nunca deixou de amar
Ele gosta de futebol
Ela gosta de verde


Ele gosta de garotas
Ela, de garotos
Ele tem um coração
Ela também


Ele gosta de beijar
Ela adora sorrir
Ele gosta de desafios
Ela adora a rotina


Ele gosta de aprender
Ela gosta de ensinar
Amor é um paralelo
Entre o skate e os corações




Por quê não daria certo?




 

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Politicagem

    
   E como a moda agora é escrever sobre as eleições - sim, porque as eleições acendem uma parcela da população que (assim como o Tiririca) não sabem e nunca vão saber o que faz um deputado federal - estou eu aqui escrevendo sobre esse tão democrático evento. Eu, particularmente, adoro ir votar. Adoro ficar encarando as pessoas na fila, ou observando alguns que disfarçadamente pegam os papeizinhos dos bueiros com uma cara de "ufa, descobri em quem votar." Adoro mais ainda entrar na sala, apertar os botões da urna e saber que aqueles números têm uma proporção gigantesca quando falamos de um país como o Brasil. Uma democracia. Ah, a democracia! Aquele palhaço do tiririca (não estou fazendo gozação, ele é realmente um palhaço profissional), foi o deputado federal mais votado depois do Enéas (aquele do "meu nome é Enéas!). Grande democracia! Eu não conheço ninguém que votou no palhaço, mas conheço quem votou no Serra, o que é quase a mesma coisa, tirando que o Serra não é um palhaço profissional. Conheço também gente que votou na Dilma, a grande (sim, enorme!) e carismática candidata do PSDB, ops, desculpem, do PT. É que às vezes eu confundo. O que muda é que ela é uma palhaça gorda. Mas a grande maioria que conheço votou na Marina, a grande espectadora dos palhaços e defensora das plantinhas do Brasil! Ela não é uma palhaça mas é como se fosse uma, uma vez que é filiada ao PV - Partido Verde. Nem falo do Plínio porque o Plínio é um palhaço mesmo, tipo o Tiririca. É daquele Partido do Sol e defende a educação e o sol - mais conhecido como socialismo e liberdade (hahahaha, desculpa, eu tive que rir nessa parte). O Plínio é o único palhaço sério mas ninguém votou nele. Oras, ninguém aqui vota em palhaço sério.
   Aí eu estava assistindo à apuração dos votos e roendo todas as minhas unhas (os pedaços que sobraram) e eis que surge o Maluf! Sim, aquele mesmo, velho conhecido da corrupção e dono do brilhante jargão "roubo mas faço". Sim, ele foi eleito pela nossa maravilhosa democracia brasileira. Aí não bastasse ouço a Waldvogel nos contando alegremente que o Alckmin havia sido eleito governador de São Paulo no primeiro turno. Naquele momento eu não tinha mais unhas. 
    A apuração para presidente demonstrava que provavelmente haveria um segundo turno entre nossos queridos candidatos - a tucana Dilma (desculpem, só coloquei assim pra ver como soaria, e, pasmem, soou bem!) e o carismático porém careca Serra. Fiquei feliz por um momento, um ínfimo momento! A perua gorda da Dilma não ganhara no primeiro turno. Depois parei e pensei que, puxa, o Serra tinha ido pro segundo turno. Aí pensei com os meus botões: "Você nunca está satisfeita com nada mesmo, pare de reclamar." "Mas o Serra foi para o segundo turno!!! O Serra, aquele-que-não-se-deve-eleger!" Meus botões nunca me entenderiam. Votar no Serra é um pecado, votar na Dilma é um...pecado. Oh, Deus! O que fazer? Anular? Mas anular parece tão sem graça, tão sem voz. Anular,que tristeza!
   Hoje é meu aniversário. Hoje não, na verdade foi ontem. Eu estava passeando com o meu cachorro pelas ruas do bairro, observando a sujeira eleitoral (uau, trocadilho pobre!) pelas ruas e pensando: "A Dilma é ruim, o Serra é péssimo, a Dilma é careca (sim, ela usa uma peruca cara e horrorosa) e o Serra também." Foi assim que olhei para o meu cachorro e lá estava ele, fazendo suas necessidades em cima de um papelzinho onde se lia: "Para o Brasil seguir mudando."


Sorri para a espontaneidade do meu cachorro.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Tu manja, mano?

    
   Cheguei para a entrevista de emprego. Era para um emprego temporário em uma loja de roupas do shopping da cidade. Sentei-me em uma cadeirinha confortável e fiquei prestando muita atenção no outro candidato, que, pelo jeito, já estava no meio de sua entrevista com o dono da loja:
    - Então mano, se pá essa é uma das loja mais da hora do shopping. Pode crê que é! Manja o shopping "Dom Pedro", em Campinas?  Então veío, já trampei em duas lojas lá pra juntá uma grana. Mais agora que minha mina mudô pra cá, eu tive que vir procurar trampo aqui. Rola ou não rola, mano?
    Levantei-me discretamente e saí de fininho. Sentei-me no banco do shopping. Comecei meu rotineiro exercício de xingamento mental. Xinguei a mãe, a avó e as amantes de Saussure. Xinguei a lingüística, as variações, o Nordeste, a fonética e o português. Xinguei mais enfaticamente a sociolingüística que me joga na cara que, no fundo (não tão no fundo - quase uma verdade inabalável), eu tenho preconceito lingüístico.